Infelizmente tive que ativar a moderação de comentários no Blog. Eu queria deixar tudo o mais aberto possível, mas tem um mala colocando propaganda de cassinos em Las Vegas e outras inutilidades toda semana.
Aproveito o ensejo para fazer um pedido. As pessoas que não têm conta no Google e quiserem fazer comentários têm a opção de escrever como "Anônimo". Esta é uma ótima opção para quem não tem paciência para criar conta, "Public IDs" da vida, o que é realmente muito chato. Mas, por favor, ASSINEM os comentários, senão eles ficam REALMENTE anônimos!
22.2.10
18.2.10
Memórias do Paraíso
Minha infância urbanóide, classe média e predial foi marcada por traumas. Essas memórias estão conversando comigo diariamente. Estou morando de novo com a minha mãe no apartamento onde nasci, cresci e de onde saí por mais de dez anos. O Paraíso não foi sempre esse bairro civilizado de hoje, cheio de empreendimentos das melhores construtoras, apartamentos antigos de três dormitórios e garagem à venda por meio milhão de reais, padarias finas em toda esquina e pet shops a cada três quarteirões. Já sou velho o suficiente para me lembrar do Paraíso roots. Um tempo de condomínios de classe média sem portões, portaria, muito menos arames farpados e câmeras de vigilância. Em frente ao Ajaccio, um dos precursores do mau gosto na denominação de edifícios, no começo dos anos oitenta, começa minha memória. Ali havia um cortiço, uma casa pintada de verde ruim onde meu pai estacionava o carro. Lá viviam pobres cujos descendentes provavelmente ocupam bairros que só conhecemos pelos letreiros de ônibus. O Paraíso da minha infância ainda não tinha expulsado completamente a pobreza para além das marginais. Na esquina havia uma venda, a venda do Seu Manoel. Uma casa com a pintura amarronzada e rota, um português de avental azul marinho vendendo de tudo, de arroz em sacas a sabão em pó e, acreditem, era o único lugar do bairro a vender o famigerado Dip-Lique, o pirulito no saquinho, um dos produtos dos anos oitenta que permitiram às crianças da minha geração criar anticorpos suficientes para superar qualquer doença, bioterrorismo ou depressão profunda.
Quando papai morreu, umas das primeiras coisas que fiz foi sugerir a minha mãe que vendêssemos ou alugássemos o apartamento, construíssemos uma coisa nova, uma vida diferente em outro lugar, com novas energias e coisa e tal. Mas logo vi que essa era uma necessidade minha, meu ímpeto de esconder algumas memórias, não o dela. Ela negou e eu respeitei. Hoje, morando aqui, mesmo que temporariamente, consigo lidar razoavelmente bem com os fantasmas desse apartamento, além de curtir as inquestionáveis praticidades do bairro: correr no Ibirapuera, cortar o cabelo no barbeiro da minha infância e diminuir meu remorso ambiental deixando o carro na garagem e saindo a pé ou de metrô. Quem me assombra mesmo são os corredores do edifício, os halls de alguns andares, a lembrança dos vizinhos, dos “amigos” de infância, o playground dos horrores e algumas quebradas aqui dos arredores.
O cenário romântico do bairro sem grades e sem portarias não durou, o caos dos anos oitenta não demorou a chegar no nosso éden pequeno burguês. Havia o caos social interno e o externo. Dentro do condomínio, uma profusão insana de crianças e adolescentes em todos os andares, todos os cinqüenta e seis apartamentos. Quase um micro baby boom. A filharada dos agraciados com o milagre econômico do Delfim. A piscina do prédio era um point de encontro social, não esse marasmo onde eu desço pra dar umas braçadas sem preocupação de expor meu físico de bancário mal-sucedido. O resultado desse caldeirão foi uma coisa que tenho até medo de descrever. Apelidaram um menino com o nome de doença venérea. Os pais das doces crianças que coabitavam o playground eram reiteradamente acusados das piores baixarias. As mães não. As mães eram o limite. Mexeu com a mãe, era porrada, ninguém jamais questionou. Mas havia exceções. Na ausência de um filho homem pra defender a honra, qualquer divorciada logo virava viúva Porcina, aquela do Roque Santeiro. Isso sem falar dos barracos entre vizinhos, quase uma rotina semanal. Os zeladores que trabalharam no Ajaccio nesse período mereciam uma medalha de bravura e honra ao mérito.
Do lado de fora não era lá muito diferente. A consciência do fim da ditadura e o que ela representava chegaram mais cedo do que deveriam pra mim por dois motivos. Primeiro o papai se candidatou a vereador pelo PMDB em 1982 e o meu mundo girou em torno dos bordões das diretas, do abaixo a ditadura, do Maluf ladrão e do Montoro é o Deus Ex Machina. Segundo, e essa é bem mais legal, o Figueiredo veio tratar da coluna na clínica de um japonês que ficava quase em frente ao nosso prédio. As peruas da rua faziam fila pra pedir autógrafo, mas o país continuou rodando como se nada tivesse acontecido. Aquilo me passou uma sensação de bibelô, um tiozinho ali só pra cumprir tabela. Pensando em retrospecto, faz todo sentido. Com o fim do regime militar veio a democracia e, finalmente, a desordem!
O Paraíso dos anos oitenta e noventa teve seus momentos Cidade de Deus, favela da Rocinha, Jardim Miriam e Capão, mano. Tinha gangues no bairro. Tinha a gangue “da Major”, a gangue do “Sarandis” e tinha até um marginal todo poderoso, o Tchaca. Tudo isso era verdade, mas eu continuava relativamente tranqüilo na minha existência enclausurada, até então vitimado apenas pelo terror psicológico da mixórdia condominial. Mas um dia sofri o ataque. Estava no primeiro ano do ensino médio do Colégio Bandeirantes quando resolvi fazer uma festa de aniversário de quinze anos no salão do edifício Ajaccio. Tudo corria bem, tinha DJ, nem sei se tinha cerveja (olha que lindo, acho que eu era realmente um menino inocente), todos os amigos e todas as gatinhas convidadas. Só me lembro que aos dez minutos do primeiro tempo chegou uma menina da minha classe com uma amiga e, após algum tempo, convidei a amiga para conhecer a piscina nos fundos do prédio. Beijinhos depois, voltando de mãozinhas dadas com a moça para o salão, todo pimpão, me deparo com pânico em SP. As gangues do Paraíso postadas com porretes e canos diante do respeitável edifício prontas para invadir a festa. E invadiram. Derrubaram o portão, deram porrada em quem conseguiram, caos total. Dois dos sobreviventes acabaram no meu quarto, vomitando pra todo lado, no tempo em que ainda usávamos carpete.
Hoje está tudo um marasmo. Raramente encontro alguém no elevador. Quando acontece, é tudo formal. Mesmo com os vizinhos, pais das crianças com quem cresci, Olá, Boa tarde, Tudo bem?, Que chuva, não? Todas as tardes, quando desço pra correr no parque, não tem gente no playground. Nem os filhos dos japoneses sempre discretos que só desciam quando não tinha mais ninguém. Vira e mexe tem um idoso com a enfermeira tomando sol, uma babá com o bebê. Um desrespeito com os meus fantasmas. Eu queria descer e ver uma criançada jogando bola, brigando, subindo na grade, jogando lixo na casa do vizinho, xingando o pai do outro, se preparando melhor para a vida, se traumatizando. Aqui no Paraíso, acho que não acontece mais. Resta saber se o Capão Redondo de hoje será o Paraíso de amanhã. E se o Capão Redondo empurrará os Capãoredondenses para mais longe. Até que não haja mais terra. Até que os pobres sejam jogados ao mar.
Quando papai morreu, umas das primeiras coisas que fiz foi sugerir a minha mãe que vendêssemos ou alugássemos o apartamento, construíssemos uma coisa nova, uma vida diferente em outro lugar, com novas energias e coisa e tal. Mas logo vi que essa era uma necessidade minha, meu ímpeto de esconder algumas memórias, não o dela. Ela negou e eu respeitei. Hoje, morando aqui, mesmo que temporariamente, consigo lidar razoavelmente bem com os fantasmas desse apartamento, além de curtir as inquestionáveis praticidades do bairro: correr no Ibirapuera, cortar o cabelo no barbeiro da minha infância e diminuir meu remorso ambiental deixando o carro na garagem e saindo a pé ou de metrô. Quem me assombra mesmo são os corredores do edifício, os halls de alguns andares, a lembrança dos vizinhos, dos “amigos” de infância, o playground dos horrores e algumas quebradas aqui dos arredores.
O cenário romântico do bairro sem grades e sem portarias não durou, o caos dos anos oitenta não demorou a chegar no nosso éden pequeno burguês. Havia o caos social interno e o externo. Dentro do condomínio, uma profusão insana de crianças e adolescentes em todos os andares, todos os cinqüenta e seis apartamentos. Quase um micro baby boom. A filharada dos agraciados com o milagre econômico do Delfim. A piscina do prédio era um point de encontro social, não esse marasmo onde eu desço pra dar umas braçadas sem preocupação de expor meu físico de bancário mal-sucedido. O resultado desse caldeirão foi uma coisa que tenho até medo de descrever. Apelidaram um menino com o nome de doença venérea. Os pais das doces crianças que coabitavam o playground eram reiteradamente acusados das piores baixarias. As mães não. As mães eram o limite. Mexeu com a mãe, era porrada, ninguém jamais questionou. Mas havia exceções. Na ausência de um filho homem pra defender a honra, qualquer divorciada logo virava viúva Porcina, aquela do Roque Santeiro. Isso sem falar dos barracos entre vizinhos, quase uma rotina semanal. Os zeladores que trabalharam no Ajaccio nesse período mereciam uma medalha de bravura e honra ao mérito.
Do lado de fora não era lá muito diferente. A consciência do fim da ditadura e o que ela representava chegaram mais cedo do que deveriam pra mim por dois motivos. Primeiro o papai se candidatou a vereador pelo PMDB em 1982 e o meu mundo girou em torno dos bordões das diretas, do abaixo a ditadura, do Maluf ladrão e do Montoro é o Deus Ex Machina. Segundo, e essa é bem mais legal, o Figueiredo veio tratar da coluna na clínica de um japonês que ficava quase em frente ao nosso prédio. As peruas da rua faziam fila pra pedir autógrafo, mas o país continuou rodando como se nada tivesse acontecido. Aquilo me passou uma sensação de bibelô, um tiozinho ali só pra cumprir tabela. Pensando em retrospecto, faz todo sentido. Com o fim do regime militar veio a democracia e, finalmente, a desordem!
O Paraíso dos anos oitenta e noventa teve seus momentos Cidade de Deus, favela da Rocinha, Jardim Miriam e Capão, mano. Tinha gangues no bairro. Tinha a gangue “da Major”, a gangue do “Sarandis” e tinha até um marginal todo poderoso, o Tchaca. Tudo isso era verdade, mas eu continuava relativamente tranqüilo na minha existência enclausurada, até então vitimado apenas pelo terror psicológico da mixórdia condominial. Mas um dia sofri o ataque. Estava no primeiro ano do ensino médio do Colégio Bandeirantes quando resolvi fazer uma festa de aniversário de quinze anos no salão do edifício Ajaccio. Tudo corria bem, tinha DJ, nem sei se tinha cerveja (olha que lindo, acho que eu era realmente um menino inocente), todos os amigos e todas as gatinhas convidadas. Só me lembro que aos dez minutos do primeiro tempo chegou uma menina da minha classe com uma amiga e, após algum tempo, convidei a amiga para conhecer a piscina nos fundos do prédio. Beijinhos depois, voltando de mãozinhas dadas com a moça para o salão, todo pimpão, me deparo com pânico em SP. As gangues do Paraíso postadas com porretes e canos diante do respeitável edifício prontas para invadir a festa. E invadiram. Derrubaram o portão, deram porrada em quem conseguiram, caos total. Dois dos sobreviventes acabaram no meu quarto, vomitando pra todo lado, no tempo em que ainda usávamos carpete.
Hoje está tudo um marasmo. Raramente encontro alguém no elevador. Quando acontece, é tudo formal. Mesmo com os vizinhos, pais das crianças com quem cresci, Olá, Boa tarde, Tudo bem?, Que chuva, não? Todas as tardes, quando desço pra correr no parque, não tem gente no playground. Nem os filhos dos japoneses sempre discretos que só desciam quando não tinha mais ninguém. Vira e mexe tem um idoso com a enfermeira tomando sol, uma babá com o bebê. Um desrespeito com os meus fantasmas. Eu queria descer e ver uma criançada jogando bola, brigando, subindo na grade, jogando lixo na casa do vizinho, xingando o pai do outro, se preparando melhor para a vida, se traumatizando. Aqui no Paraíso, acho que não acontece mais. Resta saber se o Capão Redondo de hoje será o Paraíso de amanhã. E se o Capão Redondo empurrará os Capãoredondenses para mais longe. Até que não haja mais terra. Até que os pobres sejam jogados ao mar.
27.1.10
Geografia espiritual
Então, o Haiti. Acho que o terremoto mexeu com todo mundo, só não sei de que maneira. Pensei nisso durante o dia surrealista que tive na última terça-feira. Depois de um feriado sensacional na praia com amigos queridos do colégio que não via há meses ou anos, voltei revigorado pra São Paulo. Terça de manhã acordei para mais uma entrevista de emprego em uma consultoria de RH que não ia dar em nada, “same old shit”, eu pensei. Mas essa deu. Saí de lá sem nenhuma coisa formalizada mas com a certeza de que seria contratado. Exatamente do mesmo jeito que saí das quinhentas entrevistas que fiz nos últimos dez meses com a absoluta certeza de que não seria. Essa é uma das vantagens do tempo, de estar mais gordo e mais careca. O Ronaldo pode estar mais gordo, mas sabe exatamente quando vai marcar o gol três segundos antes de qualquer um. Ele tem a minha idade. Enfim, apesar desta boa notícia, engoli um Big Mac e parti para outra entrevista de emprego que não ia dar em nada, desta vez no Morumbi. Me perdi, me xinguei por não ter dinheiro pra comprar um GPS e, de quebra, fui parado por uma blitz da PM que me aplicou uma singela multa de 550 reais por falta de inspeção veicular ambiental. Logo em seguida começou mais uma pusta chuva. Pra onde quer que eu tentasse fugir, a CBN alertava um alagamento. Perdi a entrevista, mas nem liguei, o sensor fenômeno já havia me alertado que não ia dar em nada. Só agradeci a Deus por chegar em casa vivo.
E falando em Deus, é dele (ou dela) mesmo que eu queria falar. E do Haiti também. O disco “Tropicália 2” pode ter sido uma das piores coisas que Caetano Veloso e Gilberto Gil fizeram em suas carreiras. Mas numa coisa eles tinham razão. A música principal do disco diz “O Haiti é aqui. O Haiti não é aqui”. Não sei se foi exatamente isso que eles quiseram dizer mas, de fato, o Haiti não é aqui. Afinal, temos “investment grade”, pré-sal, banco central independente e somos futuros credores do FMI. Ao mesmo tempo, quando tenho medo de morrer pelo simples fato de estar com o carro parado do lado do rio Pinheiros, acho que o Haiti é aqui sim senhor. Essa coisa toda me fez pensar (com a ajuda de meu companheiro filosófico e bloguístico Eric Lovric, que também escreveu sobre o tema, conferir link ao lado): até que ponto estamos sob intervenção divina e até que ponto estamos pagando caro por nossas próprias cagadas?
Pois bem, comecemos pela intervenção divina. O terremoto do Haiti gera um pensamento quase automático. Dentre tantos lugares no mundo pra acontecer um terremoto, dá-lhe Haiti. Dentre tantos crápulas no mundo que não fariam a menor falta, perdemos a Zilda Arns. Os ateus ficam mais convictos. Aí eu lembro de uma conversa com outro parceiro de filosofia de botequim, meu tio Raul Lessa. Estávamos conversando sobre religião e ele me contou de um livro que tinha lido (não sei o nome nem o autor). O argumento principal era que Deus e o Universo, com sua característica caótica e randômica, não podem ser a mesma coisa. “Deus não fica lá no céu”, ele dizia, “com uma cesta de cânceres pensando: vamos ver, hoje temos três de pâncreas. Esse aqui vai pro Seu Almeida lá de Birigui. Esse vai pro Sir Edward Willians de Liverpool e esse aqui vai pra aquele chinês safado que está merecendo faz tempo!”. Tampouco me convence aquela história de que Deus escreve certo por linhas tortas.
Sou filho de um pastor presbiteriano que tinha uma fé impressionante. Sou testemunha (mas não de Jeová) da transformação que a religião pode produzir. Cansei de ver meu pai, em situações dificílimas, orando, olhando para um quadrinho que dizia “The Lord Will Provide”, virar para o lado e dormir tranqüilo. Também vi a paz que a religião trazia para a vida dele e a mesma paz que ele transmitia para várias pessoas que o conheciam e com ele conversavam. Mas eu nunca consegui aceitar, como ele dizia, que o cristianismo era a única resposta. Jamais concordei com o segundo plano em que ele colocava as outras religiões. Uma coisa que realmente impactou a minha religiosidade foi um livro do Rubem Alves que li chamado “O que é religião?”. Ele explica que o ser humano é o único ser vivo que tem consciência da própria existência e, por isso, o único que precisa buscar um sentido para ela. Uma eterna vítima da frustração e da neurose. O único que, às vezes, se suicida. Acho que concordo com a visão de que Deus é uma eterna busca de resposta, uma busca impossível mas necessária. Deus aparece nos momentos raros e inexplicáveis de autêntica felicidade que vivemos em meio aos terremotos do Haiti e às enchentes da marginal Pinheiros. Não consiguia encontrar a religiosidade do meu pai quando ele defendia a supremacia irrefutável do cristianismo e a mediocridade dos budistas ou dos macumbeiros. Mas mantenho minha fé em dia quando lembro da maneira simples e sincera com que ele gostava de mim. Quando estávamos jantando no Sujinho às duas da manhã e ele me dizia: “Agora chega de conversa fiada. Quero saber de você. Me conta qualquer coisa de você”.
E agora chega a vez das nossas próprias cagadas. Ainda que dê trabalho lidar com o caos do Universo, acho que o estrago que fazemos é razoavelmente maior. Estamos todos buscando um sentido para nossas vidas, só faltou combinar com o síndico. O planetinha parece dar sinais de cansaço. Enquanto a turma da COP15 fica discutindo como se tivesse opção. Como se o ladrão apontasse o 38 na nossa cabeça e a gente dissesse: “Pô, mas deixa deizinho pro busão!”. O terremoto do Haiti e a Dona Zilda talvez sejam obra do acaso, mas a enchente da marginal Pinheiros, pra mim, não é. E Janeiro “atípico” é conversa pra boi dormir.
E falando em Deus, é dele (ou dela) mesmo que eu queria falar. E do Haiti também. O disco “Tropicália 2” pode ter sido uma das piores coisas que Caetano Veloso e Gilberto Gil fizeram em suas carreiras. Mas numa coisa eles tinham razão. A música principal do disco diz “O Haiti é aqui. O Haiti não é aqui”. Não sei se foi exatamente isso que eles quiseram dizer mas, de fato, o Haiti não é aqui. Afinal, temos “investment grade”, pré-sal, banco central independente e somos futuros credores do FMI. Ao mesmo tempo, quando tenho medo de morrer pelo simples fato de estar com o carro parado do lado do rio Pinheiros, acho que o Haiti é aqui sim senhor. Essa coisa toda me fez pensar (com a ajuda de meu companheiro filosófico e bloguístico Eric Lovric, que também escreveu sobre o tema, conferir link ao lado): até que ponto estamos sob intervenção divina e até que ponto estamos pagando caro por nossas próprias cagadas?
Pois bem, comecemos pela intervenção divina. O terremoto do Haiti gera um pensamento quase automático. Dentre tantos lugares no mundo pra acontecer um terremoto, dá-lhe Haiti. Dentre tantos crápulas no mundo que não fariam a menor falta, perdemos a Zilda Arns. Os ateus ficam mais convictos. Aí eu lembro de uma conversa com outro parceiro de filosofia de botequim, meu tio Raul Lessa. Estávamos conversando sobre religião e ele me contou de um livro que tinha lido (não sei o nome nem o autor). O argumento principal era que Deus e o Universo, com sua característica caótica e randômica, não podem ser a mesma coisa. “Deus não fica lá no céu”, ele dizia, “com uma cesta de cânceres pensando: vamos ver, hoje temos três de pâncreas. Esse aqui vai pro Seu Almeida lá de Birigui. Esse vai pro Sir Edward Willians de Liverpool e esse aqui vai pra aquele chinês safado que está merecendo faz tempo!”. Tampouco me convence aquela história de que Deus escreve certo por linhas tortas.
Sou filho de um pastor presbiteriano que tinha uma fé impressionante. Sou testemunha (mas não de Jeová) da transformação que a religião pode produzir. Cansei de ver meu pai, em situações dificílimas, orando, olhando para um quadrinho que dizia “The Lord Will Provide”, virar para o lado e dormir tranqüilo. Também vi a paz que a religião trazia para a vida dele e a mesma paz que ele transmitia para várias pessoas que o conheciam e com ele conversavam. Mas eu nunca consegui aceitar, como ele dizia, que o cristianismo era a única resposta. Jamais concordei com o segundo plano em que ele colocava as outras religiões. Uma coisa que realmente impactou a minha religiosidade foi um livro do Rubem Alves que li chamado “O que é religião?”. Ele explica que o ser humano é o único ser vivo que tem consciência da própria existência e, por isso, o único que precisa buscar um sentido para ela. Uma eterna vítima da frustração e da neurose. O único que, às vezes, se suicida. Acho que concordo com a visão de que Deus é uma eterna busca de resposta, uma busca impossível mas necessária. Deus aparece nos momentos raros e inexplicáveis de autêntica felicidade que vivemos em meio aos terremotos do Haiti e às enchentes da marginal Pinheiros. Não consiguia encontrar a religiosidade do meu pai quando ele defendia a supremacia irrefutável do cristianismo e a mediocridade dos budistas ou dos macumbeiros. Mas mantenho minha fé em dia quando lembro da maneira simples e sincera com que ele gostava de mim. Quando estávamos jantando no Sujinho às duas da manhã e ele me dizia: “Agora chega de conversa fiada. Quero saber de você. Me conta qualquer coisa de você”.
E agora chega a vez das nossas próprias cagadas. Ainda que dê trabalho lidar com o caos do Universo, acho que o estrago que fazemos é razoavelmente maior. Estamos todos buscando um sentido para nossas vidas, só faltou combinar com o síndico. O planetinha parece dar sinais de cansaço. Enquanto a turma da COP15 fica discutindo como se tivesse opção. Como se o ladrão apontasse o 38 na nossa cabeça e a gente dissesse: “Pô, mas deixa deizinho pro busão!”. O terremoto do Haiti e a Dona Zilda talvez sejam obra do acaso, mas a enchente da marginal Pinheiros, pra mim, não é. E Janeiro “atípico” é conversa pra boi dormir.
5.1.10
CQC, CQD
A TV aberta é surpreendente. Para quem sonha ser escritor, confesso que vejo televisão demais. São duas as experiências mais recentes e marcantes. A primeira aconteceu quando mudei para o interior em 2006. Morei três meses num hotel. Um suplício equivalente, dentro das minhas neuroses, a assistir “Lula, o filho do Brasil” na companhia de Hugo Chávez. Eu me sentiria sufocado no Hilton de Dubai. Odeio hotéis. Imagine o hotel Galeria de Jaguariúna, com direito a orquestra de traseiras de carro regurgitando três músicas sertanejas diferentes ao mesmo tempo. Sérgio Paranhos Fleury não conceberia tortura pior (uma piadinha sem graça e politicamente incorreta, só pra aquecer o que está por vir). O jeito foi me virar com a TV aberta naquelas noites aflitas. A única coisa suportável era o programa do príncipe Roni Von na Gazeta. Ele era educado. Entrevistava educadamente pessoas que faziam alguma coisa: cantavam, tocavam, escreviam, cozinhavam, organizavam, pesquisavam. Uma realização sem precedentes naquele mundinho, quase emocionante. Mas nesta época ainda não havia surgido a coqueluche da TV aberta. Minha segunda e atual experiência é assistir o genial CQC de Marcelo Tas, um dos mais criativos profissionais do jornalismo brasileiro, Top 10 nos livros mais vendidos, Twitter Top Five, elogiado por toda parte.
O CQC demonstra o talento do novo jornalismo brasileiro cobrindo (em duplo sentido) Carla Perez e os mendigos do Centrão.
Lembro de uma amiga dos meus pais dizer uma frase, essas cagações de regra que ouvimos durante a vida que viram adubo e geram frutos. Eu era bem criança, estava de butuca, nunca mais me esqueci. Ela disse: “Me considero uma pessoa moderna e sem preconceitos. Acho que todo mundo tem o direito de ser o que quiser, menos ridículo”. Apesar de pequeno, aquela frase teve um impacto interessante, foi impossível não guardar num arquivo X. Claro que a definição de ridículo é bastante subjetiva. Mas ainda assim a frase faz muito sentido. Ela queria dizer que aceitava qualquer convicção religiosa, sexual, alimentar, comportamental, transcendental e apenas solicitava que não lhe ofendessem a inteligência. Algo como negar o óbvio. Ver uma mesa azul bem na frente e dizer, ao vivo e em público: “Não, essa mesa é amarela”. Um Maluf dizendo “essa assinatura não é minha”. Ou o Marcelo Tas, ao vivo no programa do Dan Stulbach na CBN, dizendo que o CQC não imita o Pânico.
Didi, Mussum e Tião Macalé poderiam demonstrar a Marcelo Tas e aos demais sábios do CQC a diferença entre o bom e velho humor politicamente incorreto e a humilhação pública de pessoas.
Minhas elucubrações sobre essa pérola da cultura brasileira estão numa postagem anterior deste Blog (Link o lado- “Deficiência Mental” – 08/2009). O Pânico introduziu nas terras tupiniquins o humor fascista, baseado na humilhação pública da elite para divertir a plebe e presenteá-la com a doce ilusão de que está indo à forra. A nova ditadura da mídia pós-ditadura que não dá ao indivíduo o direito de querer ser entrevistado, o direito de não achar graça no repórter agressivo dono de uma equipe de estagiários de 800 reais chafurdando a internet em busca de temas para perguntas capciosas. O CQC, infelizmente, usa esse instrumento com bastante freqüência. (Exemplos de YouTube não poderiam faltar nessa postagem. Passei algumas horas pesquisando. Esse massacre de seis minutos na Carla Perez não poderia ser mais ilustrativo). E já que estamos imbuídos do chatinho, do bastião da moralidade, não custa cutucar mais um detalhe. Aquela frase que o Juca Kfouri insiste em relembrar em todos os seus programas: “Olha como tem jornalista canastrão fazendo propaganda na televisão”. Será que o intrépido repórter Rafinha Bastos, o imparcial, defensor dos mais elementares direitos públicos, visitaria a fábrica de um dos seus patrocinadores (podemos limitar aos que fazem propaganda dentro do programa) se ele resolvesse poluir indevidamente o córrego de uma indefesa cidadezinha do interior? E ainda tem a cara de pau de criticar o Luciano Huck por colocar propaganda no Twitter? Como diriam meus amigos, ridículo sou eu de samba-canção na varanda. Isso é algo novo, indefinível.
O velho Woody também, com esta genial piada do rabino.
Sempre que vejo esses programas me pergunto: por que o humor politicamente incorreto é tão legal e por que esses programas me ofendem? Talvez exista uma diferença fundamental em rir da condição humana, a tragédia genérica que vira comédia ao simples virar da moeda de cara para coroa, com a violação de privacidade. Entre saber que todos os humanos, até os cristãos, são pecadores e transmitir em rede nacional a conversa com o padre na intimidade do confessionário. Alguma coisa estranha está faltando, alguma forma de respeito ou de limite. A diferença entre mostrar a verdade, tentar conscientizar por meio do humor ou da ironia, e apedrejar a prostituta quando muito, mais muito obviamente, ninguém por ali tem condição de atirar a primeira pedra.
Pensando na improvável hipótese de alguém ligado a esse programa ler este texto um dia, eu lembraria uma resposta antiga do Chico Anísio (aliás, mais um agraciado pelo humor inteligente do CQC, dada sua lentidão para algumas respostas - o novo jornalismo exige respostas rápidas e astutas, sob pena de mais ridicularização). Um dia lhe perguntaram sobre as imitações de Gil e Caetano, unanimidades nacionais, feitas no seu programa. Ele não se preocupava? Eles não vão se sentir ofendidos? A genial resposta foi explicar que só imitava as pessoas interessantes. Que graça teria criticar uma pessoa desinteressante? Um dos melhores amigos que eu fiz na minha passagem pelo interior (e pela vida), o Mineiro, um dia ficou puto de tanto que a gente imitava o jeito dele falar. Aí eu lembrei o Chico Anísio e falei: Minas, a gente só imita as pessoas legais. Você imagina alguém imitando o Reginaldo da Contabilidade? Pois é, eu diria isso pro Marcelo Tas se pudesse, numa mesa de bar, talvez depois do quinto chopp, como quem não quer nada. Não cansarei de lhe descer a lenha. Você poderia fazer muito melhor.
O CQC demonstra o talento do novo jornalismo brasileiro cobrindo (em duplo sentido) Carla Perez e os mendigos do Centrão.
Lembro de uma amiga dos meus pais dizer uma frase, essas cagações de regra que ouvimos durante a vida que viram adubo e geram frutos. Eu era bem criança, estava de butuca, nunca mais me esqueci. Ela disse: “Me considero uma pessoa moderna e sem preconceitos. Acho que todo mundo tem o direito de ser o que quiser, menos ridículo”. Apesar de pequeno, aquela frase teve um impacto interessante, foi impossível não guardar num arquivo X. Claro que a definição de ridículo é bastante subjetiva. Mas ainda assim a frase faz muito sentido. Ela queria dizer que aceitava qualquer convicção religiosa, sexual, alimentar, comportamental, transcendental e apenas solicitava que não lhe ofendessem a inteligência. Algo como negar o óbvio. Ver uma mesa azul bem na frente e dizer, ao vivo e em público: “Não, essa mesa é amarela”. Um Maluf dizendo “essa assinatura não é minha”. Ou o Marcelo Tas, ao vivo no programa do Dan Stulbach na CBN, dizendo que o CQC não imita o Pânico.
Didi, Mussum e Tião Macalé poderiam demonstrar a Marcelo Tas e aos demais sábios do CQC a diferença entre o bom e velho humor politicamente incorreto e a humilhação pública de pessoas.
Minhas elucubrações sobre essa pérola da cultura brasileira estão numa postagem anterior deste Blog (Link o lado- “Deficiência Mental” – 08/2009). O Pânico introduziu nas terras tupiniquins o humor fascista, baseado na humilhação pública da elite para divertir a plebe e presenteá-la com a doce ilusão de que está indo à forra. A nova ditadura da mídia pós-ditadura que não dá ao indivíduo o direito de querer ser entrevistado, o direito de não achar graça no repórter agressivo dono de uma equipe de estagiários de 800 reais chafurdando a internet em busca de temas para perguntas capciosas. O CQC, infelizmente, usa esse instrumento com bastante freqüência. (Exemplos de YouTube não poderiam faltar nessa postagem. Passei algumas horas pesquisando. Esse massacre de seis minutos na Carla Perez não poderia ser mais ilustrativo). E já que estamos imbuídos do chatinho, do bastião da moralidade, não custa cutucar mais um detalhe. Aquela frase que o Juca Kfouri insiste em relembrar em todos os seus programas: “Olha como tem jornalista canastrão fazendo propaganda na televisão”. Será que o intrépido repórter Rafinha Bastos, o imparcial, defensor dos mais elementares direitos públicos, visitaria a fábrica de um dos seus patrocinadores (podemos limitar aos que fazem propaganda dentro do programa) se ele resolvesse poluir indevidamente o córrego de uma indefesa cidadezinha do interior? E ainda tem a cara de pau de criticar o Luciano Huck por colocar propaganda no Twitter? Como diriam meus amigos, ridículo sou eu de samba-canção na varanda. Isso é algo novo, indefinível.
O velho Woody também, com esta genial piada do rabino.
Sempre que vejo esses programas me pergunto: por que o humor politicamente incorreto é tão legal e por que esses programas me ofendem? Talvez exista uma diferença fundamental em rir da condição humana, a tragédia genérica que vira comédia ao simples virar da moeda de cara para coroa, com a violação de privacidade. Entre saber que todos os humanos, até os cristãos, são pecadores e transmitir em rede nacional a conversa com o padre na intimidade do confessionário. Alguma coisa estranha está faltando, alguma forma de respeito ou de limite. A diferença entre mostrar a verdade, tentar conscientizar por meio do humor ou da ironia, e apedrejar a prostituta quando muito, mais muito obviamente, ninguém por ali tem condição de atirar a primeira pedra.
Pensando na improvável hipótese de alguém ligado a esse programa ler este texto um dia, eu lembraria uma resposta antiga do Chico Anísio (aliás, mais um agraciado pelo humor inteligente do CQC, dada sua lentidão para algumas respostas - o novo jornalismo exige respostas rápidas e astutas, sob pena de mais ridicularização). Um dia lhe perguntaram sobre as imitações de Gil e Caetano, unanimidades nacionais, feitas no seu programa. Ele não se preocupava? Eles não vão se sentir ofendidos? A genial resposta foi explicar que só imitava as pessoas interessantes. Que graça teria criticar uma pessoa desinteressante? Um dos melhores amigos que eu fiz na minha passagem pelo interior (e pela vida), o Mineiro, um dia ficou puto de tanto que a gente imitava o jeito dele falar. Aí eu lembrei o Chico Anísio e falei: Minas, a gente só imita as pessoas legais. Você imagina alguém imitando o Reginaldo da Contabilidade? Pois é, eu diria isso pro Marcelo Tas se pudesse, numa mesa de bar, talvez depois do quinto chopp, como quem não quer nada. Não cansarei de lhe descer a lenha. Você poderia fazer muito melhor.
28.12.09
A Gilete
Vento solar e estrelas do mar
A terra azul da cor de seu vestido
Vento solar e estrelas do mar
Você ainda quer morar comigo?
Lô Borges – Um girassol da cor do seu cabelo
O dia era digno de se convocar um plebiscito para transferir Juiz de Fora de Minas Gerais para o Rio de Janeiro: abafado, úmido e carente de maresia. Anderson, em homenagem, zanzou o tempo todo pela casa de bermudinha e havaiana. Admirou a varanda de zero cinqüenta por um e meio com orgulho, antecipou a presença do apart-grill do catorze zero meia e suspirou mais fundo, admirando os próprios peitorais. O piso de pedras, bege com detalhes floridos na paleta de marrom, promoção da Casa do Pedrão em dez vezes sem juros, entoava um agradável eco de chinelos e reverberava as guitarras das melhores bandas da região. Tudo meu brother! A vista tinha um ar meio carioca, ladeiras de paralelepípedos entremeadas de mato, meninas pra lá e pra cá. Pela esquerda, um pedaço da avenida suficiente para enxergar o luminoso do delivery de torresmo e o açaí da praça onde ele terminara o curso de pós graduação em marketing e finanças. A sala era decorada com quadros que herdou dos tios: um pôster envidraçado do Rocky I (o único que prestava), o quadro maciço do chimpanzé vestido de astronauta e o famoso desenho das caricaturas da MPB, tudo em gentil harmonia com a TV CCE e o gato da Net aberto para todos os campeonatos do PFC. Na cozinha recusou o pingüim da vó, ficou em dúvida com os panos de prato bordados e com rendinha, aceitou o velho microondas e a geladeira de puxador retrátil. Era velha, amarelada, propensa a fungos, mas gelava cerveja no ponto e matava as saudades do velho Nésio. Seu quarto estava arrumadinho, a cama de viúva casara certinho com o jogo de lençóis dos Herculóides. O criado mudo tinha um vão especial para a coleção de quadrinhos do Groo, o errante. Mas o xodó dele era mesmo o banheiro. Limpinho, desinfetado com cuidado pela Dona Fátima, cheirando a lavanda roxa, dava pra imaginar as valquírias do comercial trazendo seu acervo da Gatinhas Brazil numa bandeja prateada para o momento íntimo da cagada vespertina. Na bancada ao espelho, arrumou a coleção de perfumes e deu destaque especial ao pólo preto. Dentro do Box, jaziam impávidas no suporte plástico as últimas aquisições, até então inéditas: xampu e condicionador para cabelos secos e um reluzente barbeador de cinco lâminas, virgem, ainda no lacre, ansiando um momento todo especial.
Às três e meia o Daniel ligou para dar uma enquadrada. Que história é essa de jantarzinho íntimo pros amigos? Falou com ele meio de lado no celular, soava muito alto e já tinha tomado umas. Vem logo e não cria caso. Lembrou do Flavinho, que era mais tolerante. Você está curtindo? O importante é você estar curtindo. Aquele jeito mineiro do brejo de falar a frase calma, o biquinho, a cabeça virando de lado, ponderando. Deu mais confiança. Quis ir em frente. O Flavinho era foda, companheiro. Estava quase na hora da mina chegar, precisava demonstrar confiança. Decisão era uma coisa importante, tinha um passo a dar, para frente. Um desafio. Uma vida mais madura, de pós-graduado, de quem tinha apartamento próprio, mesmo financiado. Depois se lembrou do Daniel de novo, das baladas, das farras no sítio, das viagens pro Rio, começou a se arrepender, viu a variabilidade que os Herculóides poderiam comportar, a mistura de aromas dantescos que tomariam conta daquele quarto canalha depois de um fim de semana bem levado.
O pensamento não vingou. Tocou a campainha. Tocou pela primeira vez a sua campainha. Sou eu quem paga a conta de luz dessa campainha. Era a mina, chegando antes da hora. Oi, lindo, não agüentei esperar até anoitecer, sabe a Teca, prima do Betão?, então, ela estava passando aqui na praça pra comprar aquela bolsa que eu te falei que era ridícula e caríssima e que era imitação da que a minha irmã viu em Nova Iorque, então, ela foi lá e comprou, óbvio, ela se acha, coitada. Anderson ouviu ouvindo, focado no farol quase aceso do vestidinho azul da sua candidata a namorada oficial. O toque-toque do neo-tamanco o fez abaixar o som. Começou a tocar Beautiful Day do U2 e ele mudou de idéia, aumentou de novo. Resolveu apelar pra estrear logo aquela coisa toda. Estava com saudades, gatinha, vem cá me dar um beijinho na varanda, vem? Ela foi. Ela, vez em quando, ensaiava comentar alguma coisa, voltar pra bolsa ou pras amigas, alheia ao espírito. Ele apelava às mordidinhas no pescoço e aos impropérios ao ouvido. Me conta essa história lá no quarto, safada! Ai, Anderson, vem que eu te conto. Vem, vem, me conta tudo do preço dessa bolsa! Mais uma vitória dos Herculóides, esse heróis da infância, sempre presentes.
Apesar de toda a incandescência, Anderson foi tomado por um sentimentalismo pós-coito. Imbuiu-se daquelas horas em que todas as putarias da vida parecem vazias. Colocou um CD que ele escondia dos amigos, um dos copiados do acervo do pai: Rod Stewart ao vivo e Unplugged. Dançou “Have I told you lately that I Love you” com a mina, do começo ao fim, no meio da sala marrom, agarradinho, ele de cueca, ela de calcinha e camiseta. Pensou em casamento, numa filinha, numa casa maior em Belo Horizonte. Ou no Rio. A vida diferente, um pai de terno indo ao trabalho, uma figura respeitável nas ladeiras, cumprimentando as meninas com simples afagos nos cabelos, apenas gestos. Uma referência, um diferente na família. Ao voltar estava jogado no sofá vendo imagens correntes do gato e a mina dava o veredicto: não tem nada aqui, ainda bem que eu trouxe as coisas no carro! Toalha de mesa, talheres e aqui do lado tem os ingredientes que eu preciso. Vou lá e já volto. Toalha de mesa.
A noite chegou rápido. Iniciou-se um ritual de recepção: Flavinho, Daniel, ele e a mina. A gente está tão feliz de receber vocês aqui... Flavinho, mais simpático, fazia companhia pra mina enquanto ela terminava de mexer o estrogonofe e secava as mãos no avental. Sabia que é o prato preferido dele? Daniel aproveitou a brecha e chamou o Anderson pra pôr os pés no chão, ele tinha enlouquecido, tinha ficado com a mina há duas semanas, mal conhecia e ela estava lá com “a gente está feliz”. Que mané “a gente está feliz”? Anderson sorriu tranqüilo, deixa rolar, meu brother, fica tranqüilo, pega mais uma cerveja. O amigo sentou de novo, ficou tomando mais uma sem conseguir se concentrar na pancadaria da TV. Estava aflito com a combinação do chimpanzé sorridente e da toalha de mesa verde-água com detalhes geométricos laranja e amarelo. Mas a mina era rápida e captou os sinais. Tratou dele com mais atenção do que a dispensada ao namorado. Serviu com cuidado o arroz, arrumadinho, depois ajeitou o montinho de batata palha e encaixou o estrogonofe no vão, na medida certa. Deixava a cervejas sempre geladas, tomava cuidado pra não interromper os papos de homem. Perguntou se o Daniel ainda esta namorando. Ainda? A mina sorriu dengosa, você não tem jeito mesmo, né? Desfechou com um golpe de mestre, pavê de chocolate, receita secreta da vó da mina.
Ânimos descansados, o ambiente respirou. Flavinho fumava um Carlton na varanda e divertia os amigos contando as histórias da ex-namorada que ameaçou processá-lo por danos morais. Daniel, mais relaxado, deu seqüência com a descrição detalhada da estratégia que usaria pra catar a filha do dono da academia. Essa sim era mulher pra casar. Tec Tec Tec. Discutiram por uns dois minutos se mantinham a Net no PFC ou mudavam pro canal de domador de cobras do Discovery. Tec Tec Tec. Ficaram mesmo com o domador, abaixaram o som pra discutir melhor se ficariam por lá mesmo ou se iam pra balada. Daniel queria ir ao Cultural Bar e o Flavinho não queria mexer com isso não. Tec Tec Tec Tec Tec. Anderson foi pegar mais cerveja e o Daniel parou pra prestar atenção:
- Que caralho de barulho é esse?
- Sei lá...
- Cadê a mina?
- Não sei, ué, estava aqui, foi pra cozinha e depois não vi.
A mina estava tomando banho.
- Anderson... Ela não tinha tomado banho antes do jantar?
- Tinha.
- E o que é esse Tec Tec Tec?
Após uma esquisita meia-hora, ela de preto, batom e bolsa despediu-se rapidamente de todos explicando que ia correr pra marcar presença no jantar de aniversário do padrasto, senão a mãe vai ficar no pé mais de uma semana. Enquanto os amigos já não tinham mais saco pra buscar interpretações, Anderson só pensava no seu altar, seu xodó azulejado. Lá, um pote vazio de creme desdenhava o poder do Pólo. A revista primeira da pilha estava cheia de respingos, bem na capa da Susi Barraqueira. O cheiro de lavanda roxa esvaíra-se. Havia agora uma enjoativa mistura de xampu de babosa com uma colônia adocicada de dezesseis e noventa. E a gilete, maculada, agonizava no chão do Box, misturada aos cabelos compridos acumulados no ralo.
Fim de tarde seguinte, tocou o celular, era o Daniel. Só se fala de uma coisa aqui no bar: parece que o Betão está rico. Ganhou na raspadinha premiada. Anderson desligou, viu um pouco de TV, fez um sanduíche, abriu uma cerveja. Depois de um tempo dobrou cuidadosamente a toalha de mesa verde água. Ao lado colocou os restos de estrogonofe, arroz e batata palha em três recipientes plásticos separados e vedados. Foi à varanda, curtiu o pôr-do-sol, trocou olhares com as meninas da ladeira. Tudo inútil. Uma coisa não saía da sua cabeça. Sacanagem... Zoou a minha gilete.
A terra azul da cor de seu vestido
Vento solar e estrelas do mar
Você ainda quer morar comigo?
Lô Borges – Um girassol da cor do seu cabelo
O dia era digno de se convocar um plebiscito para transferir Juiz de Fora de Minas Gerais para o Rio de Janeiro: abafado, úmido e carente de maresia. Anderson, em homenagem, zanzou o tempo todo pela casa de bermudinha e havaiana. Admirou a varanda de zero cinqüenta por um e meio com orgulho, antecipou a presença do apart-grill do catorze zero meia e suspirou mais fundo, admirando os próprios peitorais. O piso de pedras, bege com detalhes floridos na paleta de marrom, promoção da Casa do Pedrão em dez vezes sem juros, entoava um agradável eco de chinelos e reverberava as guitarras das melhores bandas da região. Tudo meu brother! A vista tinha um ar meio carioca, ladeiras de paralelepípedos entremeadas de mato, meninas pra lá e pra cá. Pela esquerda, um pedaço da avenida suficiente para enxergar o luminoso do delivery de torresmo e o açaí da praça onde ele terminara o curso de pós graduação em marketing e finanças. A sala era decorada com quadros que herdou dos tios: um pôster envidraçado do Rocky I (o único que prestava), o quadro maciço do chimpanzé vestido de astronauta e o famoso desenho das caricaturas da MPB, tudo em gentil harmonia com a TV CCE e o gato da Net aberto para todos os campeonatos do PFC. Na cozinha recusou o pingüim da vó, ficou em dúvida com os panos de prato bordados e com rendinha, aceitou o velho microondas e a geladeira de puxador retrátil. Era velha, amarelada, propensa a fungos, mas gelava cerveja no ponto e matava as saudades do velho Nésio. Seu quarto estava arrumadinho, a cama de viúva casara certinho com o jogo de lençóis dos Herculóides. O criado mudo tinha um vão especial para a coleção de quadrinhos do Groo, o errante. Mas o xodó dele era mesmo o banheiro. Limpinho, desinfetado com cuidado pela Dona Fátima, cheirando a lavanda roxa, dava pra imaginar as valquírias do comercial trazendo seu acervo da Gatinhas Brazil numa bandeja prateada para o momento íntimo da cagada vespertina. Na bancada ao espelho, arrumou a coleção de perfumes e deu destaque especial ao pólo preto. Dentro do Box, jaziam impávidas no suporte plástico as últimas aquisições, até então inéditas: xampu e condicionador para cabelos secos e um reluzente barbeador de cinco lâminas, virgem, ainda no lacre, ansiando um momento todo especial.
Às três e meia o Daniel ligou para dar uma enquadrada. Que história é essa de jantarzinho íntimo pros amigos? Falou com ele meio de lado no celular, soava muito alto e já tinha tomado umas. Vem logo e não cria caso. Lembrou do Flavinho, que era mais tolerante. Você está curtindo? O importante é você estar curtindo. Aquele jeito mineiro do brejo de falar a frase calma, o biquinho, a cabeça virando de lado, ponderando. Deu mais confiança. Quis ir em frente. O Flavinho era foda, companheiro. Estava quase na hora da mina chegar, precisava demonstrar confiança. Decisão era uma coisa importante, tinha um passo a dar, para frente. Um desafio. Uma vida mais madura, de pós-graduado, de quem tinha apartamento próprio, mesmo financiado. Depois se lembrou do Daniel de novo, das baladas, das farras no sítio, das viagens pro Rio, começou a se arrepender, viu a variabilidade que os Herculóides poderiam comportar, a mistura de aromas dantescos que tomariam conta daquele quarto canalha depois de um fim de semana bem levado.
O pensamento não vingou. Tocou a campainha. Tocou pela primeira vez a sua campainha. Sou eu quem paga a conta de luz dessa campainha. Era a mina, chegando antes da hora. Oi, lindo, não agüentei esperar até anoitecer, sabe a Teca, prima do Betão?, então, ela estava passando aqui na praça pra comprar aquela bolsa que eu te falei que era ridícula e caríssima e que era imitação da que a minha irmã viu em Nova Iorque, então, ela foi lá e comprou, óbvio, ela se acha, coitada. Anderson ouviu ouvindo, focado no farol quase aceso do vestidinho azul da sua candidata a namorada oficial. O toque-toque do neo-tamanco o fez abaixar o som. Começou a tocar Beautiful Day do U2 e ele mudou de idéia, aumentou de novo. Resolveu apelar pra estrear logo aquela coisa toda. Estava com saudades, gatinha, vem cá me dar um beijinho na varanda, vem? Ela foi. Ela, vez em quando, ensaiava comentar alguma coisa, voltar pra bolsa ou pras amigas, alheia ao espírito. Ele apelava às mordidinhas no pescoço e aos impropérios ao ouvido. Me conta essa história lá no quarto, safada! Ai, Anderson, vem que eu te conto. Vem, vem, me conta tudo do preço dessa bolsa! Mais uma vitória dos Herculóides, esse heróis da infância, sempre presentes.
Apesar de toda a incandescência, Anderson foi tomado por um sentimentalismo pós-coito. Imbuiu-se daquelas horas em que todas as putarias da vida parecem vazias. Colocou um CD que ele escondia dos amigos, um dos copiados do acervo do pai: Rod Stewart ao vivo e Unplugged. Dançou “Have I told you lately that I Love you” com a mina, do começo ao fim, no meio da sala marrom, agarradinho, ele de cueca, ela de calcinha e camiseta. Pensou em casamento, numa filinha, numa casa maior em Belo Horizonte. Ou no Rio. A vida diferente, um pai de terno indo ao trabalho, uma figura respeitável nas ladeiras, cumprimentando as meninas com simples afagos nos cabelos, apenas gestos. Uma referência, um diferente na família. Ao voltar estava jogado no sofá vendo imagens correntes do gato e a mina dava o veredicto: não tem nada aqui, ainda bem que eu trouxe as coisas no carro! Toalha de mesa, talheres e aqui do lado tem os ingredientes que eu preciso. Vou lá e já volto. Toalha de mesa.
A noite chegou rápido. Iniciou-se um ritual de recepção: Flavinho, Daniel, ele e a mina. A gente está tão feliz de receber vocês aqui... Flavinho, mais simpático, fazia companhia pra mina enquanto ela terminava de mexer o estrogonofe e secava as mãos no avental. Sabia que é o prato preferido dele? Daniel aproveitou a brecha e chamou o Anderson pra pôr os pés no chão, ele tinha enlouquecido, tinha ficado com a mina há duas semanas, mal conhecia e ela estava lá com “a gente está feliz”. Que mané “a gente está feliz”? Anderson sorriu tranqüilo, deixa rolar, meu brother, fica tranqüilo, pega mais uma cerveja. O amigo sentou de novo, ficou tomando mais uma sem conseguir se concentrar na pancadaria da TV. Estava aflito com a combinação do chimpanzé sorridente e da toalha de mesa verde-água com detalhes geométricos laranja e amarelo. Mas a mina era rápida e captou os sinais. Tratou dele com mais atenção do que a dispensada ao namorado. Serviu com cuidado o arroz, arrumadinho, depois ajeitou o montinho de batata palha e encaixou o estrogonofe no vão, na medida certa. Deixava a cervejas sempre geladas, tomava cuidado pra não interromper os papos de homem. Perguntou se o Daniel ainda esta namorando. Ainda? A mina sorriu dengosa, você não tem jeito mesmo, né? Desfechou com um golpe de mestre, pavê de chocolate, receita secreta da vó da mina.
Ânimos descansados, o ambiente respirou. Flavinho fumava um Carlton na varanda e divertia os amigos contando as histórias da ex-namorada que ameaçou processá-lo por danos morais. Daniel, mais relaxado, deu seqüência com a descrição detalhada da estratégia que usaria pra catar a filha do dono da academia. Essa sim era mulher pra casar. Tec Tec Tec. Discutiram por uns dois minutos se mantinham a Net no PFC ou mudavam pro canal de domador de cobras do Discovery. Tec Tec Tec. Ficaram mesmo com o domador, abaixaram o som pra discutir melhor se ficariam por lá mesmo ou se iam pra balada. Daniel queria ir ao Cultural Bar e o Flavinho não queria mexer com isso não. Tec Tec Tec Tec Tec. Anderson foi pegar mais cerveja e o Daniel parou pra prestar atenção:
- Que caralho de barulho é esse?
- Sei lá...
- Cadê a mina?
- Não sei, ué, estava aqui, foi pra cozinha e depois não vi.
A mina estava tomando banho.
- Anderson... Ela não tinha tomado banho antes do jantar?
- Tinha.
- E o que é esse Tec Tec Tec?
Após uma esquisita meia-hora, ela de preto, batom e bolsa despediu-se rapidamente de todos explicando que ia correr pra marcar presença no jantar de aniversário do padrasto, senão a mãe vai ficar no pé mais de uma semana. Enquanto os amigos já não tinham mais saco pra buscar interpretações, Anderson só pensava no seu altar, seu xodó azulejado. Lá, um pote vazio de creme desdenhava o poder do Pólo. A revista primeira da pilha estava cheia de respingos, bem na capa da Susi Barraqueira. O cheiro de lavanda roxa esvaíra-se. Havia agora uma enjoativa mistura de xampu de babosa com uma colônia adocicada de dezesseis e noventa. E a gilete, maculada, agonizava no chão do Box, misturada aos cabelos compridos acumulados no ralo.
Fim de tarde seguinte, tocou o celular, era o Daniel. Só se fala de uma coisa aqui no bar: parece que o Betão está rico. Ganhou na raspadinha premiada. Anderson desligou, viu um pouco de TV, fez um sanduíche, abriu uma cerveja. Depois de um tempo dobrou cuidadosamente a toalha de mesa verde água. Ao lado colocou os restos de estrogonofe, arroz e batata palha em três recipientes plásticos separados e vedados. Foi à varanda, curtiu o pôr-do-sol, trocou olhares com as meninas da ladeira. Tudo inútil. Uma coisa não saía da sua cabeça. Sacanagem... Zoou a minha gilete.
8.12.09
O relojoeiro
" ’If you knew Time as well as I do,’ said the Hatter,‘you wouldn’t talk about wasting it. It’s him.’
’I don’t know what you mean,’ said Alice.
’Of course you don’t!’ the Hatter said, tossing his head contemptuously. ‘I dare say you never even spoke to Time!’
’Perhaps not,’ Alice cautiously replied: ‘but I know I have to beat time when I learn music.’
’Ah! that accounts for it,’ said the Hatter. ‘He won’t stand beating. Now, if you only kept on good terms with him, he’d do almost anything you liked with the clock."
Lewis Carroll - Alice's adventures in Wonderland
11:37, hora em branco matinal, lembrança do Natal que se aproxima, ressaca imaginária do tender e das passas no arroz. A graça do dia 25, para ele, era inexistir. Era uma herança. O tempo do pai era um relógio sem paradas artificiais e regalos, provocação infantil de adulto para criança obrigada a crescer, ver a realidade econômica do país e da vida e da sua bicicleta, do seu atari. Aquele tempo era um Maílson da Nóbrega anão. Agora hoje, 12:43, uma coisa apenas o faria desejar festas: uma boneca russa infinita, vermelha e dourada, cheia de afrescos, uma capaz de olhá-lo e dizer: você pode me abrir hoje até seu aniversário, o dia da criança, o dia do solitário, a festa de fim de ano do ano que vem, nenhum ponteiro há de interromper nosso ciclo, nossa conversa e intimidade. Seu presente aos outros seria um ritual de magia negra espalhando bruxinhas idênticas pelos cantos da sala e do jardim, assim estragariam também as páscoas do porvir.
14:02, viu no espelho sua cicatriz na testa, companheira quase tão velha quanto seus primeiros minutos. No dia da bicicleta, o velho não disse nada, balbuciou alguma desculpa qualquer, meteu-o no carro, lanterna quebrada, fedendo a jornal. Um bairro chegara e ele não sabia onde era. Agora, 14:14, ele nunca mais saberá. Como sempre, nada fazia sentido, por que tão longe? Por que arrumar um lugar esquisito? Qualquer um arruma carro e hoje em dia... No fim esqueceu. Carrilhão sem paradas, sem razões, gira e gira e gira e demora. Demora pra perceber o mundo, pra se importar com os outros. Discutiram coisa de carros o pai e o tiozão sujo de graxa. Este arrumou, no que devia ser 15:37 daquele dia, uma improvável bicicleta cross do fundo da oficina, semi-nova mas honesta. Veio junto na conta, um presente de causas naturais. 16:09 do dia seguinte, uma cicatriz de causas igualmente.
Hoje mais tarde, talvez 16:28, ele, logo ele, unanimidade da família, fantasiou a cicatriz resolvendo abrir no meio da hora de servir o tender, jorrando pus irônico da mesma cor do molho de ervas. Estava chocando um cuco drogado. Queria quebrar a casca e mostrar a impontualidade do velho, a falta de importância que o filho jamais conseguiu fazer o mundo merecer. 17:04, odiava as festas por caírem no verão, suava uma gota segundo. Decidiu apelar ao amuleto, a última alquimia de pulso paralisada desde o dia do velório. Uma peça de valor médio-baixo de mercado, uma pulseira de couro escuro, brilhante, cheia de um gasto justo, um envoltório metálico meio prateado pelo gasto do dourado. 17:27, ele subia a velha ladeira do bairro, toda decorada de condomínios orgulhosos de mini lâmpadas chinesas, e ele as adorava: itens primordiais do déficit comercial e espiritual brasileiro. Lá em cima, a rua do colégio, entre uma lan-house e uma franquia de perfumes, sobrevivia um relojoeiro.
17:39, ele observou os relógios de cozinha, à esquerda. O homem previsível o atendeu sem sorrir, meio calvo, meio branco da vida. Vamos verificar se a bateria funciona. Se estivesse ali, o pai diria a frase de sempre, e ele se impacientaria e diria eu sei que você se mataria em uma semana nesse ofício, é tão nobre ser as coisas que nós somos, e lembrou que o papo de ser aquilo o enchia do mesmo vazio de agora, 17:43. Funcionou? Funcionou. Mas a satisfação de ver a engrenagem girando pedia mais. O senhor poderia restaurar as falhas no metal? Sim, mas não vale a pena investir. Ele não vai durar muito. Cogitou insistir. Mas não, preferiu continuar desnatado, um Pascoal sem ilha, um pai de dia dos pais sem filhos, uma mãe sem Casas Bahia. O relógio fica e um dia vai parar. De causas naturais.
’I don’t know what you mean,’ said Alice.
’Of course you don’t!’ the Hatter said, tossing his head contemptuously. ‘I dare say you never even spoke to Time!’
’Perhaps not,’ Alice cautiously replied: ‘but I know I have to beat time when I learn music.’
’Ah! that accounts for it,’ said the Hatter. ‘He won’t stand beating. Now, if you only kept on good terms with him, he’d do almost anything you liked with the clock."
Lewis Carroll - Alice's adventures in Wonderland
11:37, hora em branco matinal, lembrança do Natal que se aproxima, ressaca imaginária do tender e das passas no arroz. A graça do dia 25, para ele, era inexistir. Era uma herança. O tempo do pai era um relógio sem paradas artificiais e regalos, provocação infantil de adulto para criança obrigada a crescer, ver a realidade econômica do país e da vida e da sua bicicleta, do seu atari. Aquele tempo era um Maílson da Nóbrega anão. Agora hoje, 12:43, uma coisa apenas o faria desejar festas: uma boneca russa infinita, vermelha e dourada, cheia de afrescos, uma capaz de olhá-lo e dizer: você pode me abrir hoje até seu aniversário, o dia da criança, o dia do solitário, a festa de fim de ano do ano que vem, nenhum ponteiro há de interromper nosso ciclo, nossa conversa e intimidade. Seu presente aos outros seria um ritual de magia negra espalhando bruxinhas idênticas pelos cantos da sala e do jardim, assim estragariam também as páscoas do porvir.
14:02, viu no espelho sua cicatriz na testa, companheira quase tão velha quanto seus primeiros minutos. No dia da bicicleta, o velho não disse nada, balbuciou alguma desculpa qualquer, meteu-o no carro, lanterna quebrada, fedendo a jornal. Um bairro chegara e ele não sabia onde era. Agora, 14:14, ele nunca mais saberá. Como sempre, nada fazia sentido, por que tão longe? Por que arrumar um lugar esquisito? Qualquer um arruma carro e hoje em dia... No fim esqueceu. Carrilhão sem paradas, sem razões, gira e gira e gira e demora. Demora pra perceber o mundo, pra se importar com os outros. Discutiram coisa de carros o pai e o tiozão sujo de graxa. Este arrumou, no que devia ser 15:37 daquele dia, uma improvável bicicleta cross do fundo da oficina, semi-nova mas honesta. Veio junto na conta, um presente de causas naturais. 16:09 do dia seguinte, uma cicatriz de causas igualmente.
Hoje mais tarde, talvez 16:28, ele, logo ele, unanimidade da família, fantasiou a cicatriz resolvendo abrir no meio da hora de servir o tender, jorrando pus irônico da mesma cor do molho de ervas. Estava chocando um cuco drogado. Queria quebrar a casca e mostrar a impontualidade do velho, a falta de importância que o filho jamais conseguiu fazer o mundo merecer. 17:04, odiava as festas por caírem no verão, suava uma gota segundo. Decidiu apelar ao amuleto, a última alquimia de pulso paralisada desde o dia do velório. Uma peça de valor médio-baixo de mercado, uma pulseira de couro escuro, brilhante, cheia de um gasto justo, um envoltório metálico meio prateado pelo gasto do dourado. 17:27, ele subia a velha ladeira do bairro, toda decorada de condomínios orgulhosos de mini lâmpadas chinesas, e ele as adorava: itens primordiais do déficit comercial e espiritual brasileiro. Lá em cima, a rua do colégio, entre uma lan-house e uma franquia de perfumes, sobrevivia um relojoeiro.
17:39, ele observou os relógios de cozinha, à esquerda. O homem previsível o atendeu sem sorrir, meio calvo, meio branco da vida. Vamos verificar se a bateria funciona. Se estivesse ali, o pai diria a frase de sempre, e ele se impacientaria e diria eu sei que você se mataria em uma semana nesse ofício, é tão nobre ser as coisas que nós somos, e lembrou que o papo de ser aquilo o enchia do mesmo vazio de agora, 17:43. Funcionou? Funcionou. Mas a satisfação de ver a engrenagem girando pedia mais. O senhor poderia restaurar as falhas no metal? Sim, mas não vale a pena investir. Ele não vai durar muito. Cogitou insistir. Mas não, preferiu continuar desnatado, um Pascoal sem ilha, um pai de dia dos pais sem filhos, uma mãe sem Casas Bahia. O relógio fica e um dia vai parar. De causas naturais.
3.12.09
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