15.11.09
O exame
Agulha. A própria palavra perfura. Ele queria era evitar o constrangimento de sempre, isso era tudo. Aquele ridículo do afrescalhado. Na verdade era assim, convenhamos e venhamos não ser uma coisa de macho muito forte, ora, na frente da enfermeira já toda preparada e passando a sensação de que ele era só mais um na rotina toda. Então um braço deitava ali, rendido, pra direita e sempre o fazia lembrar a palavra “drill”, aqueles verbos onomatopaicos do inglês que ele tanto gostava. Menos este. Este era coisa de filme de ficção científica que sempre tem uma “drill” pra sugar a Terra ou qualquer outro planeta. O outro braço (aqui está o presente secreto) pateticamente se dobrava em “V” na sua frente. Tinha que encostar bem no rosto, pois cada perna do “V” serviria para cobrir totalmente a superfície de cada olho, uma covardia muda dividida em dois membros. Curioso é que o artifício em questão, por toda sua geometria intrínseca, permitiu ao vitimado ter livre o seu nariz, logo abaixo do gordinho do cotovelo. Ah, essa liberdade! Através dela o cheirinho inequívoco de éter dos estabelecimentos hospitalares dá o seu alô. Alô picardias adolescentes, o sexo que ele jamais praticou como gostaria mas quase sempre se fez promíscuo, outra palavra interessante que talvez fizesse de seu sangue uma possível evidência criminal. Reforçou-se a pressão do “V”. Sucessão natural é pensar sobre o pensamento da enfermeira e sempre são insensíveis e vividas as tiradoras de sangue (até o uniforme não era tão branco - Ou ele está vendo coisas). Seu “V” deve despertar nas enfermeiras sadismos recônditos. A prova veio no aperto da borrachinha, aquela marrom estranha. Ela tomou o braço de sufocamento, o nó foi exagerado. De novo. A rotina dos quadrados do piso de borracha. O próprio avistar dos quadrados é sinal de que o “V” vai cedendo, como se respondesse a um lampejo de dignidade. Já ereto, sem virar o rosto à direita, concentra-se no seu ódio às divisórias plásticas. Constata que a visão periférica lhe concedeu detalhes da vida do cubículo, teria evitado se pudesse. Viu o óbvio com força: a fragilidade do seu corpo. Agulha.
6.11.09
O descobridor de Potosí
Havia entre os ibéricos, desde medievais eras, verdadeira adoração pelos brasões. Assim o demonstra o orgulho sóbrio com que a família espanhola Garcez Vásquez exibiu sua cor em bandeiras no porto de Lisboa em 12 de novembro de 1518. Partia naquele dia um de seus mais ilustres fidalgos, D. Diego Garcez Vásquez, capitão da expedição exploratória a serviço do monarca português D. João III, o Piedoso. Ao caminhar em direção a nau Santa Madalena, o manto de D. Diego adquiriu espantoso brilho, fundindo-se à cor preponderante de seu brasão em algo sólido e único. Levantadas as velas, sua embarcação e as demais da frota fundiram-se ao mar e céu, o próprio sol escureceu antes da noite e o capitão desapareceu na uniformidade, muito antes de atingir o horizonte. Nesta toada conduziram-se, como num vôo, até as águas cristalinas dos rios do sul da América.
Atracaram na baía de Santa Catarina, inteira tomada por matas e gramíneas. Mal se podia ver a areia. A expedição, além de seus homens, contava com índios carijós trajados em folhas, fibras e cordas de cipó. Livre de seu manto incompatível aos ares tropicais, D. Diego conduzia o grupo com desenvoltura impressionante, como se prescindisse de qualquer orientação dos nativos. Os homens atribuíam sua estranha nova coloração às febres tropicais. Em muitos momentos, embrenhados na mata, viam o capitão desaparecer. Mais adiante, a curta distância, distinguiam-no finalmente em meio às rãs, jacarés, cobras e folhagens. O brasão, sempre carregado tal um cajado pelo explorador, também se transformava, misturado naturalmente ao ambiente fechado e hostil.
Após dois meses chegaram ao deserto. Mais da metade dos europeus perecera. D. Diego e seus homens cobriram-se de tinturas à base de pau-brasil confeccionadas pelos carijós. A proteção era necessária para resistir à exposição constante ao sol e a ausência de sombras. Sobreviveram graças à caça de animais rasteiros, assando suas carnes expostas e afiando os dentes como selvagens. A pouca madeira que encontravam pelo caminho era cuidadosamente guardada para que suportassem a temperatura da noite em volta do fogo. Após uma sangrenta batalha com índios rivais dos carijós, o corpo de D. Diego e seu brasão eram, novamente, uma só pele, esgarçada pela selvageria, indistinguível da cor dos nativos e da areia sem fim.
Tanta agrura e morte não foram em vão. O explorador fez de sua missão uma resposta às súplicas dos monarcas ibéricos. Descansou pela primeira vez seu semblante ao avistar a montanha prateada de Potosí. Foi tal seu deslumbramento que não notou a beleza da vila indígena, toda coberta de gelo e neve, as construções de pedra, os lobos e coelhos domesticados descansando à porta das casas. Conforme se aproximava da montanha, D. Diego empalidecia e seus olhos claros descoloriam. Caminhou afundando na neve até desaparecer aos olhos dos dois carijós que ainda o acompanhavam. Deitou finalmente sobre o mar de prata e não pode mais se mexer. Expôs seus dentes todos, num sorriso febril. Permitiu que sua pele absorvesse toda a força fria da montanha. Aos poucos seu corpo, e o brasão dos Garcez Vásquez, transformaram-se numa mistura sólida de gelo e carvão.
Nesta forma D. Diego retornou ao velho continente em 1556, levado por navegadores desconhecidos. A corte do rei espanhol Felipe II o recebeu a princípio com estranhamento. Contudo, logo deram início às homenagens e honrarias. Repousou, enfim, num suntuoso jazigo, descolorido, no cemitério de Madrid.
Atracaram na baía de Santa Catarina, inteira tomada por matas e gramíneas. Mal se podia ver a areia. A expedição, além de seus homens, contava com índios carijós trajados em folhas, fibras e cordas de cipó. Livre de seu manto incompatível aos ares tropicais, D. Diego conduzia o grupo com desenvoltura impressionante, como se prescindisse de qualquer orientação dos nativos. Os homens atribuíam sua estranha nova coloração às febres tropicais. Em muitos momentos, embrenhados na mata, viam o capitão desaparecer. Mais adiante, a curta distância, distinguiam-no finalmente em meio às rãs, jacarés, cobras e folhagens. O brasão, sempre carregado tal um cajado pelo explorador, também se transformava, misturado naturalmente ao ambiente fechado e hostil.
Após dois meses chegaram ao deserto. Mais da metade dos europeus perecera. D. Diego e seus homens cobriram-se de tinturas à base de pau-brasil confeccionadas pelos carijós. A proteção era necessária para resistir à exposição constante ao sol e a ausência de sombras. Sobreviveram graças à caça de animais rasteiros, assando suas carnes expostas e afiando os dentes como selvagens. A pouca madeira que encontravam pelo caminho era cuidadosamente guardada para que suportassem a temperatura da noite em volta do fogo. Após uma sangrenta batalha com índios rivais dos carijós, o corpo de D. Diego e seu brasão eram, novamente, uma só pele, esgarçada pela selvageria, indistinguível da cor dos nativos e da areia sem fim.
Tanta agrura e morte não foram em vão. O explorador fez de sua missão uma resposta às súplicas dos monarcas ibéricos. Descansou pela primeira vez seu semblante ao avistar a montanha prateada de Potosí. Foi tal seu deslumbramento que não notou a beleza da vila indígena, toda coberta de gelo e neve, as construções de pedra, os lobos e coelhos domesticados descansando à porta das casas. Conforme se aproximava da montanha, D. Diego empalidecia e seus olhos claros descoloriam. Caminhou afundando na neve até desaparecer aos olhos dos dois carijós que ainda o acompanhavam. Deitou finalmente sobre o mar de prata e não pode mais se mexer. Expôs seus dentes todos, num sorriso febril. Permitiu que sua pele absorvesse toda a força fria da montanha. Aos poucos seu corpo, e o brasão dos Garcez Vásquez, transformaram-se numa mistura sólida de gelo e carvão.
Nesta forma D. Diego retornou ao velho continente em 1556, levado por navegadores desconhecidos. A corte do rei espanhol Felipe II o recebeu a princípio com estranhamento. Contudo, logo deram início às homenagens e honrarias. Repousou, enfim, num suntuoso jazigo, descolorido, no cemitério de Madrid.
28.10.09
Antropologia de caminhão
Cuiabá estava em polvorosa. Repórteres de todos os respeitáveis meios de comunicação apinhavam-se à porta do pequeno sobrado verde, geminado a um azul e a um descascado. Dona Alzira saiu enfim, abraçada às tradicionais papagaias de pirata da família. Emocionada, balbuciou agradecimentos a Nossa Senhora, Santo Antônio, Jesus Cristo, Deus e à Polícia Federal. Há dois meses desaparecido, seu esposo, Alcides da Silva, caminhoneiro profissional há mais de trinta anos, fora encontrado como efeito colateral da Operação Pajé Ubirajara, estratégia secreta de nossa força nacional em busca de traficantes de ouro e aliciadores de menores no sul do Mato Grosso. O velho Alcides, em aparente overdose de ayahuasca, chamou a atenção dos policiais à paisana ao desfilar, seminu, em tangas de crochê e ornamentos penosos, pela praça central de Campo Novo de Parecis, gritando a pleno pulmões que era a encarnação de Peró Naruê Xantim. A despeito disso, os munícipes já o conheciam pela alcunha de “Cidão Caramuru”.
Acreditando-se em bocas de Matilde parecisenses, parece que a história se passou como segue. Alcides já deixara Cuiabá bastante aborrecido com seu supervisor, um trainee esnobe que se divertia enviando a velha guarda da firma aos destinos menos nobres. Sua incumbência era buscar a soja produzida em Sapezal, nos quilômetros finais da rodovia MT-235, mais conhecida entre ele e seus companheiros como a porra da rodovia do índio. Já antecipando o quão difícil seria escapar dos atoleiros, o experiente caminhoneiro encheu sua cabine de mandingas anti-pluviais. Ainda assim rodou e rodou entoando rezas com a figurinha de Nossa Senhora dobradinha e presa ao anel do dedo mindinho. Ao se aproximar da terrível travessia florestal, surpreendeu-se com um monumental tapete asfáltico, ainda perfumado de nova tinta amarela. Como se a santa lhe dissesse que não era sonho, avistou a placa: “Pedágio dos índios – 3 KM”.
Ainda entorpecido, Alcides não resistiu a uma piadinha na cabine número três, boa tarde, aceita miçanga? A bonita nativa pareci não entendeu, não sorriu, falou são dez reais senhor e estendeu-lhe um recibo e um folheto: “VISITE A PARADA AMIGA PARECI”. Alheio aos riscos de adentrar o caminhão naquela excêntrica vicinal, Alcides rodou, passou pelo Capivara Grill, barraquinhas de artesanato, pelo Alligator’s Burguers, pelas casinhas de protótipos de pajé ofertando ervas e curas, mas foi parar mesmo no Iracema’s – Honey Lips Virgins, graças ao neon vermelho e azul recém-inaugurado. Ali conheceu Suzana, linda mestiça de índios com missionários neozelandeses, apaixonou-se, prometeu tirá-la da vida, ignorou Dona Alzira que a estas horas já dormia tranqüila lá em Cuiabá. E logo no estacionamento do motel Xanxerê Xanchadas lhe depenaram todo o caminhão, não perdoaram nem a foto de Dona Alzira, ainda jovem, colada ao cd riscado do rei Roberto que ele pendurava no retrovisor.
Em meio à confusão, foi apresentado a um tipo meio esquisito com shorts adidas que se dizia cunhado de Suzana. Ponderou-lhe que a delegacia mais próxima ficava só em Sapezal e sugeriu que tomassem uma cachacinha pra esfriar a cabeça. Este meliante encontra-se neste momento detido por suspeita de envolvimento no ilícito, mas o que importa é que Alcides tomou sete doses de ayahuasca convencido de que era pinga com ervas da região. O paradeiro e as desventuras de Alcides nos dois meses que passou na selva, lamentavelmente, são difíceis de reconstituir, considerando as restrições imposta pelo Ibama e pela Funai para a devida proteção dos códigos culturais parecis. Alcides se encontra agora discursando em rede nacional de televisão, ao vivo de Cuiabá, carinhosamente abraçado com Dona Alzira e seus filhos. Parece solene e elogia as iniciativas do atual governo com vistas ao progresso do país.
Acreditando-se em bocas de Matilde parecisenses, parece que a história se passou como segue. Alcides já deixara Cuiabá bastante aborrecido com seu supervisor, um trainee esnobe que se divertia enviando a velha guarda da firma aos destinos menos nobres. Sua incumbência era buscar a soja produzida em Sapezal, nos quilômetros finais da rodovia MT-235, mais conhecida entre ele e seus companheiros como a porra da rodovia do índio. Já antecipando o quão difícil seria escapar dos atoleiros, o experiente caminhoneiro encheu sua cabine de mandingas anti-pluviais. Ainda assim rodou e rodou entoando rezas com a figurinha de Nossa Senhora dobradinha e presa ao anel do dedo mindinho. Ao se aproximar da terrível travessia florestal, surpreendeu-se com um monumental tapete asfáltico, ainda perfumado de nova tinta amarela. Como se a santa lhe dissesse que não era sonho, avistou a placa: “Pedágio dos índios – 3 KM”.
Ainda entorpecido, Alcides não resistiu a uma piadinha na cabine número três, boa tarde, aceita miçanga? A bonita nativa pareci não entendeu, não sorriu, falou são dez reais senhor e estendeu-lhe um recibo e um folheto: “VISITE A PARADA AMIGA PARECI”. Alheio aos riscos de adentrar o caminhão naquela excêntrica vicinal, Alcides rodou, passou pelo Capivara Grill, barraquinhas de artesanato, pelo Alligator’s Burguers, pelas casinhas de protótipos de pajé ofertando ervas e curas, mas foi parar mesmo no Iracema’s – Honey Lips Virgins, graças ao neon vermelho e azul recém-inaugurado. Ali conheceu Suzana, linda mestiça de índios com missionários neozelandeses, apaixonou-se, prometeu tirá-la da vida, ignorou Dona Alzira que a estas horas já dormia tranqüila lá em Cuiabá. E logo no estacionamento do motel Xanxerê Xanchadas lhe depenaram todo o caminhão, não perdoaram nem a foto de Dona Alzira, ainda jovem, colada ao cd riscado do rei Roberto que ele pendurava no retrovisor.
Em meio à confusão, foi apresentado a um tipo meio esquisito com shorts adidas que se dizia cunhado de Suzana. Ponderou-lhe que a delegacia mais próxima ficava só em Sapezal e sugeriu que tomassem uma cachacinha pra esfriar a cabeça. Este meliante encontra-se neste momento detido por suspeita de envolvimento no ilícito, mas o que importa é que Alcides tomou sete doses de ayahuasca convencido de que era pinga com ervas da região. O paradeiro e as desventuras de Alcides nos dois meses que passou na selva, lamentavelmente, são difíceis de reconstituir, considerando as restrições imposta pelo Ibama e pela Funai para a devida proteção dos códigos culturais parecis. Alcides se encontra agora discursando em rede nacional de televisão, ao vivo de Cuiabá, carinhosamente abraçado com Dona Alzira e seus filhos. Parece solene e elogia as iniciativas do atual governo com vistas ao progresso do país.
24.10.09
Ponto de interrogação
E aqui estou, levando este nobre currículo pra entrevista. Ele não acreditou, aposto, quando falei que já trabalhei onde trabalhei. O cara é até gente fina, mas pensa que taxista é periferia. A periferia é que está em nós, maluco. Deixa passar dois anos, ele vai ver onde leva esse currículo. Cansei de fazer ponto com playboy frustrado do Jardins. Neguinho foi lá, passou na faculdade, meia-boca, papai fez churrasco, passou quatro anos puxando fumo, enchendo a cara, teco-teco na farinha e tchaca tchaca na butchaca, chamando loirinha de Galisteu. Só que tem o seguinte: acabou a faculdade, vai disputar vaga com o japonês. E quando o japonês abduz a planilha, faz as paradas, seu chefe não vai nem lembrar o seu crachá. E aí você vai ver que esse taxi está estacionado mais perto da sua casa do que você imagina.
- Mas diz aí, dá pra tirar um cascalho razoável nesse ponto, ou nem?
Olha lá, falei. Não é por acaso que os meus grisalhos são o terror da Cidade Ademar. Eu tenho nas veias o conhecimento. O fluxo das idéias, sapiência de quem dá a idéia. A molecada me chama de mestre dos magos. Se fosse no Rio, todos os camaradinhas me respeitam. Não dou cinco minutos pra gravatinha sacar um assunto de futebol. Neguinho pensa que taxista só sabe falar de futebol. Só falta ser corintiano. Se bem que não. Puta que pariu, pá-pum, é corintiano. Loirinho assim, quando é corintiano, acha que a periferia toda só tem gambá.
- Pô, diz aí, não dou seis meses pra levarem o Dentinho pro Barcelona.
Não vou nem lançar que o meu pai era faxineiro do Cícero Pompeu e lá em casa é todo mundo tricolor. Mesmo porque não é verdade. Mas vou até mudar de assunto, se ele começar com pagação de Ronaldo eu vou meter bandeira dois. Quero ver ele falar de trabalho, vamos ver se eu não conheço esses sistemas aí que você usa, SAP, Microsiga. É, está impressionado, não falei? Gostando das bolinhas aí atrás do banco? Vai se acostumando. A não ser que você seja menos cabaço do que eu e não vá engravidar uma vadia. Se bem que, sinceramente, você tem jeito de quem não pega ninguém há uns oito meses.
- Já veio nessa balada aqui? Pô, cara, têm várias minas.
Vamos lá, vamos lá, estamos chegando, Vila Olímpia, a Wall Street da classe média paulistana. Só que sem a Melanie Griffith. Cheio de maninho do Morumbi vindo aqui trabalhar doze horas por dia pra ganhar dois conto por mês. A periferia aqui ganha mais, filho, vai vendo. Quatro meia oito, é aqui. Vai mano, vai. Boa sorte. E o pior é que é boa sorte mesmo, senão é mais um pra me urubuzar o ponto.
- Mas diz aí, dá pra tirar um cascalho razoável nesse ponto, ou nem?
Olha lá, falei. Não é por acaso que os meus grisalhos são o terror da Cidade Ademar. Eu tenho nas veias o conhecimento. O fluxo das idéias, sapiência de quem dá a idéia. A molecada me chama de mestre dos magos. Se fosse no Rio, todos os camaradinhas me respeitam. Não dou cinco minutos pra gravatinha sacar um assunto de futebol. Neguinho pensa que taxista só sabe falar de futebol. Só falta ser corintiano. Se bem que não. Puta que pariu, pá-pum, é corintiano. Loirinho assim, quando é corintiano, acha que a periferia toda só tem gambá.
- Pô, diz aí, não dou seis meses pra levarem o Dentinho pro Barcelona.
Não vou nem lançar que o meu pai era faxineiro do Cícero Pompeu e lá em casa é todo mundo tricolor. Mesmo porque não é verdade. Mas vou até mudar de assunto, se ele começar com pagação de Ronaldo eu vou meter bandeira dois. Quero ver ele falar de trabalho, vamos ver se eu não conheço esses sistemas aí que você usa, SAP, Microsiga. É, está impressionado, não falei? Gostando das bolinhas aí atrás do banco? Vai se acostumando. A não ser que você seja menos cabaço do que eu e não vá engravidar uma vadia. Se bem que, sinceramente, você tem jeito de quem não pega ninguém há uns oito meses.
- Já veio nessa balada aqui? Pô, cara, têm várias minas.
Vamos lá, vamos lá, estamos chegando, Vila Olímpia, a Wall Street da classe média paulistana. Só que sem a Melanie Griffith. Cheio de maninho do Morumbi vindo aqui trabalhar doze horas por dia pra ganhar dois conto por mês. A periferia aqui ganha mais, filho, vai vendo. Quatro meia oito, é aqui. Vai mano, vai. Boa sorte. E o pior é que é boa sorte mesmo, senão é mais um pra me urubuzar o ponto.
18.10.09
25th Hour

Ver filmes é um dos meus passatempos prediletos, tão frequente e gostoso quanto a cervejinha, o playstation, os livros, o violão e outros menos nobres. Mas quando me perguntam "qual foi o último filme bom que você viu?" eu sempre hesito, me dá um branco total. Aí eu penso, porra, eu vejo uns cinco filmes por semana. Será que o álcool já lesou tanto assim minha memória? Infelizmente, comparando o meu desempenho nas provas de vestibular com o atual, nas provas de concursos, a resposta é sim. Mas não é esse o problema com os filmes. É difícil ver um filme bom, porque só é digno desse título aquele que te dá um chute no peito. Aquilo que te faz, sem perceber, ficar cinco minutos olhando as letrinhas sem ler absolutamente nada, muito menos prestar atenção na música.
Atenção SPOILER abaixo – a expressão da moda na internet pra eufemismar a frase: "O mala vai contar o fim do filme".
Enfim, aconteceu hoje. Claro que eu esperava coisa boa, Spike Lee, Edward Norton, Phillip Seymor Hoffman, porcaria não ia vir. Levei o chute, olhei as letrinhas e tal. Depois fiquei matutando o porquê. O roteiro, ou melhor, a história resumida do filme não tem nada de mais. Um traficante de droga é pego pela polícia em casa com um tijolão de grana e outro de maconha. O filme é o último dia dele antes de se entregar na cadeia. O mafioso russo pra quem ele trabalhava oferece uma festa de despedida. O pai está cheio de remorso. Os dois amigos de infância vão à festa. Lá ele descobre que quem dedou não foi a namorada gostosa, como ele desconfiava, foi o auxiliar do sub-chefão. Ela o amava de verdade. O pai leva o cara pra cadeia. E acabou. Então, como pode ser tão bom? Pois é, não tem como fazer um spoiler disso. O Spike Lee conta de uma maneira que, no fim do filme, eu fiquei cinco minutos com a sensação de que eu estava no carro a caminho da prisão.
Isso parece muito com a minha pequena epifania recente. Prazer em escrever eu sempre tive, mas descobrir que, pra escrever ficção, você não precisa escrever sobre nada é um alívio indescritível. Pode ser óbvio, mas se o óbvio não fosse difícil de descobrir não existiriam livros de auto-ajuda, nem psicólogos, sei lá. É mil vezes mais fácil escrever a partir das palavras do que buscar as palavras a partir da história. Fica bom? Tem "valor literário"? Não faço idéia. Mas o resultado é surpreendente. E o chute é certeiro.
15.10.09
Folheando
A Argentina na Copa está, nossa torcida a pesar. Posso que esta foi a primeira notícia do dia dizer. Meu cérebro de manhã, meu cérebro precisa, ele precisa de um café forte pra pegar no tranco. Não tem jeito, se não for do meu saber no pó, no vidro e na pazinha, a quantidade exata. E na minha máquina. Ah, boa notícia, o governo a desasucrinar, vai restituir o imposto, o meu, o seu, o nosso suor e a renda, tudo junto, eu pelo menos espero. Enquanto não acordo aquele despertar do colega que, sempre chegando mais cedo e mais disposto, alegrista e conferencista, você odeia, meu conselho sugestivo é falar comigo só daqui a meia hora. Depois do jornal. Junto com a tinta que emporcalha os dedos, atrapalhando o biscoitismo, as mesmices, o lucro recorde dos bancos animando o mercado, me incomoda. O prefeito, por seu turno, cumpre sua antipalavra de campanha, parcela (sem juros!) o aumento do imposto predial, territorial, urbano e decreta: no que se refere ao primeiro caderno, nada mais a declarar.
Do torneio eliminatório dos cadernos, veículos empatou com imóveis, assegurando a vaga do esportes. Maradona esbraveja, Dunga resmunga, minha mulher caga e anda, eu bocejo de novo, pego mais café. O cronista, imbuído do poder eu já sabia, rebate os respostismos a raquetadas, sempre paragrafando em pouco brilho. Honduras, em estado de sítio, dá motivo de gritismo aos gansos, ovelhas, bovinos e pulgões, está na Copa. As notinhas canto de página do ciclismo, do tênis e da ginástica, apêndices do anúncio página toda, a promoção (sem juros!) de toda sorte de cromossomidade celular, alertam: há um possível campeão mundial, mas parece que ele não gosta de sair na foto.
Minha mulher saiu pra fazer isso que está reportado na matéria de capa do empregos, que eu passo, por estar desconexo da minha realidade agoral e, mais por uma obrigação, vou ao dinheiro. “Arrecadação do imposto sindical dispara”. Chorei. “Uma linha de crédito a mais, uma preocupação a menos”, claro que sim, diga isso pra minha digníssima, a vossa advogadeza que acaba de sair. O que, o imposto foi criado nos anos 40 por Vargas? Aí sim, adoro o bom velhinho, eu gostaria de ter vivido na época dele, ou talvez o que eu goste mesmo não vai mais ser publicado, as histórias, do meu avô, o gauchão. A bolsa sobe 2,4%, com o dólar a 1,70, eu poderia ir a Nova Iorque se o resgate não tivesse, se a minha vale já não fosse tão ordinária. Mas pra mim o que mais vale é o panda, esse bicho adoro e sempre penso nele quando o PIB da China não para de crescer e me dá vontade de comer broto de bambu no ching ling.
Por estar de pijama, por já passar do onze o ponteiro maior, por não ter uma fazeção digna qualquer em vista, não me sinto com tempo, tampouco à altura de lidar com a ilustrada. Meu dia a dia está mais pra co, pra quem não sabe bem o que ti, nada pra dar e nada pra di, está difícil explicar, não é fácil estar assim a esta altura do ano. Aqui sim, dá pra entender, melhor, juiz solta preso, mãe joga filha fora, latinhas e calabresa em oferta, tensões adolescentíssimas em provas, concursos, até em casas de detenção. O famoso pimenta no dos outros, parece nos redimir, é refresco. Folheando mais, até o final, profissionais oferecem-se. Janine vinte a, serv. compl. atend.a dom. Minha mulher gostar assim, gostar, não vai.
Do torneio eliminatório dos cadernos, veículos empatou com imóveis, assegurando a vaga do esportes. Maradona esbraveja, Dunga resmunga, minha mulher caga e anda, eu bocejo de novo, pego mais café. O cronista, imbuído do poder eu já sabia, rebate os respostismos a raquetadas, sempre paragrafando em pouco brilho. Honduras, em estado de sítio, dá motivo de gritismo aos gansos, ovelhas, bovinos e pulgões, está na Copa. As notinhas canto de página do ciclismo, do tênis e da ginástica, apêndices do anúncio página toda, a promoção (sem juros!) de toda sorte de cromossomidade celular, alertam: há um possível campeão mundial, mas parece que ele não gosta de sair na foto.
Minha mulher saiu pra fazer isso que está reportado na matéria de capa do empregos, que eu passo, por estar desconexo da minha realidade agoral e, mais por uma obrigação, vou ao dinheiro. “Arrecadação do imposto sindical dispara”. Chorei. “Uma linha de crédito a mais, uma preocupação a menos”, claro que sim, diga isso pra minha digníssima, a vossa advogadeza que acaba de sair. O que, o imposto foi criado nos anos 40 por Vargas? Aí sim, adoro o bom velhinho, eu gostaria de ter vivido na época dele, ou talvez o que eu goste mesmo não vai mais ser publicado, as histórias, do meu avô, o gauchão. A bolsa sobe 2,4%, com o dólar a 1,70, eu poderia ir a Nova Iorque se o resgate não tivesse, se a minha vale já não fosse tão ordinária. Mas pra mim o que mais vale é o panda, esse bicho adoro e sempre penso nele quando o PIB da China não para de crescer e me dá vontade de comer broto de bambu no ching ling.
Por estar de pijama, por já passar do onze o ponteiro maior, por não ter uma fazeção digna qualquer em vista, não me sinto com tempo, tampouco à altura de lidar com a ilustrada. Meu dia a dia está mais pra co, pra quem não sabe bem o que ti, nada pra dar e nada pra di, está difícil explicar, não é fácil estar assim a esta altura do ano. Aqui sim, dá pra entender, melhor, juiz solta preso, mãe joga filha fora, latinhas e calabresa em oferta, tensões adolescentíssimas em provas, concursos, até em casas de detenção. O famoso pimenta no dos outros, parece nos redimir, é refresco. Folheando mais, até o final, profissionais oferecem-se. Janine vinte a, serv. compl. atend.a dom. Minha mulher gostar assim, gostar, não vai.
9.10.09
O chatinho no Rio 2016

Meu amigo Eric Lovric, em mais um frutífero capítulo de nossa joint venture bloguística, saiu dizendo que o Brasil gosta de queimar etapas, imagine! (http://mondozuado.wordpress.com) Aí eu fiz o comentário abaixo sobre nosso querido evento assim a nível de mundo.
Pois é. Queimar etapas? Pô, puta injustiça. Pelo menos com o JK. Ele só quis fazer cinqüenta anos em cinco.
Eu começaria meu comentário com uma justa homenagem ao Juca Kfouri. Um dos poucos jornalistas esportivos do Brasil capazes de assumir sua oposição aos jogos olímpicos. Ser contra 2016 é uma coisa assim meio quem não gosta de samba bom sujeito não é. É ser aquele cara que pede pizza de atum na festa de aniversário do amigo na pizzaria. Garçom: pizza de atum e um suco de melão, por gentileza? É ser o chatinho, que fica criticando tudo em nome da ética. Ai, ele se acha o bastião da moralidade!
O Rio 2016 também é a consagração de uma outra especialidade dourada do Brasil, diria o chatinho. A patriotada. Esta palavra ainda não está no dicionário, mas ele tem fé que o Houaiss ainda vai ser render. Poderia ser definido mais ou menos assim: “subs. Fem. – exacerbação irracional, exagerada, acima de tudo ridícula, do orgulho de pertencer a uma nação; pataquada tupiniquim;”. Alguém sabia o que era classe laser ou quadra de saibro até um cidadão ganhar uma medalha de ouro ou um campeonato mundial? Então, fazer festa pra esportes acessíveis a 0,0000415% da população é patriotada. Outro aspecto importante da patriotada é a criação de gritos de guerra que dão vontade de dar um tiro de espingarda no cérebro. “EEEEEEEEUUUUUUUUUU SOU BRAAAAA SIIIIIIIII…”.

Então, uma pessoa fez falta lá na comemoração de Copenhague, diria o chatinho. Aquele tal de Bernardinho. Aquele que pertence a uma turma que é responsável por mais de 20 anos de hegemonia do Brasil no vôlei mundial. Alguém poderia lembrar de perguntar pra ele, mas afinal como é que funciona esse negócio de política esportiva? Acho tão engraçado, nunca ouvi falar do nome do presidente da confederação brasileira de vôlei. Talvez seja porque ele trabalha.
Tá bom, chega de amargura, vai. Garçom, traz mais três originais. O pessoal da mesa de bar está prestes a colocar o chatinho na parede. Fala aí: aposto que na Copa e na Olimpíada você vai tomar todas, vestir a amarelinha, tirar fotos com as loiras holandesas na rua. Lógico que vai. E eu vou junto. Ninguém é de ferro e o chatinho e eu SOOOOOMOSSS BRAAAAA SSSIIIIIII LEEEEE
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